A Experiência Mestiça Brasileira Ameaçada
“O mamaluco (indivíduo oriundo da miscigenação luso-tupi) simplificara os costumes portugueses, tomando aos do índio aquele jeito de viajar, alimentar-se, viver, bater-se; mas o seu espírito era lusitano." (Pedro Calmon. HISTÓRIA SOCIAL DO BRASIL. "O Mamaluco, Lusíada do Sertão". Cap. XI. Pág. 195)
É com essa citação do grande historiador brasileiro que começo este artigo. Na verdade, estas palavras definem bem a grande diferença entre o Brasil e os demais países da América Latina, e até mesmo de todo o restante do mundo. O fato que ninguém diz ou percebe é que, de certa maneira, ao contrário dos países anglo e hispano-americanos (compostos mistos de europeus, negros e indígenas, como no Brasil) a miscigenação nunca foi tão intensa nesses países como aconteceu em nosso país. O Brasil é como uma flor única e rara em meio a um jardim tão vasto chamado Mundo. E nossa civilização é única justamente devido à nossa colonização, que foi feita de maneira tão singular e inteligente pelos portugueses que problemas raciais presentes em países como Peru, Bolívia e até mesmo nos próprios EUA nunca foram uma constante da nossa cultura como fôra nestas nações. Falar de “racismo estrutural” e outras baboseiras do tipo num país que em pleno século XIX reunia em seu quadro político e cultural grandes nomes de etnia negra é de uma imbecilidade sem igual.
No início da colonização das américas, nos países sob domínio espanhol, os hispano-europeus raramente se misturavam com indígenas, e mesmo quando havia uma mestiçagem tardia, eram sempre feitas de maneira a preservar a cultura de sua etnia sobre a outra, inferiorizada por estes, e raramente se mesclavam aos autóctones da região colonizada (com algumas exceções como o México, por exemplo). Nas colônias inglesas, com destaque para a América do Norte, o que se viu foi uma forte segregação racial ainda pior entre os anglo-europeus e as outras etnias locais, com os ingleses imigrando da europa com toda sua cultura anglo-saxã intacta e preservada, com uma cultura étnica fortemente segregacionista. Se houveram mudanças no modo de agir e pensar dos angloamericanos em relação àqueles mesmos cidadãos que viviam no Reino Unido, deveu-se mais ao aculturamento dos britânicos com o novo território e seus desafios geográficos do que propriamente devido á qualquer impulso miscigenatório-racial e cultural que poderia ter havido entre estes e os indígenas americanos. Muito menos ainda com os negros africanos que ali foram utilizados como escravos após o início da colonização britânica.
No Brasil isso foi totalmente o inverso. O humanismo cultural lusíada, alicerçado pelo histórico ancestral árabe e fundamentado pela religião católica portuguesa, permitiu ao gentílico português ter uma forte abertura cultural para lidar de maneira mais prática com os índios da costa brasileira. A maneira como absorveram, primariamente, a cultura e a língua indígena (a vida, comida, etc) fez com que a cultura lusitana nos primeiros séculos de colonização fosse sendo diluída aos poucos na base cultural local, ou seja, na cultura Tupi. Através da vida conjunta entre portugueses e índios, o Brasil começou a tomar forma através de uma grande aventura miscigenatória, com o branco português se adequando à vida cotidiana do indígena, aprendendo sua língua, moral, preconceitos, virtudes, ao mesmo tempo em que inseria seus próprios traços morais e intelectuais oriundos de sua cultura na base cultural tupi nos locais onde passaram a viver. O resultado disso, após três séculos de colonização portuguesa, foi a criação de um novo gentílico, oriundo de uma mistura étnica e cultural, compondo cerca de 90% da população brasileira até a vinda do rei Dom João VI ao território brasileiro em 1808.
A população parda e miscigenada brasileira é um belo exemplo da diluição cultural de uma raça sobre outra e de como culturas podem se misturar e se adequar ao ambiente onde vivem de maneira a anularem a diferença destas raças e culturas, como a mistura entre índios e portugueses fez dando origem a uma proto-etnia tipicamente nacional: a Etnia Brasileira. Esse é um traço característico da nossa nacionalidade. Posteriormente, o negro também veio a influenciar largamente a nossa cultura, trazendo suas virtudes físicas e morais, seus medos, preconceitos, etc. Da mesma maneira que os índios e os portugueses se misturaram, os negros também se misturaram aos portugueses, e posteriormente aos índios. Isso sem falar na vinda dos europeus em larga para o nosso país (italianos, alemães, poloneses, etc), dos norte africanos e médio-orientais (libaneses, por exemplo) e também os asiáticos (japoneses, chineses), que também estão, ainda hoje, sendo absorvidos na cultura nacional e no conjunto étnico do nosso país.
Para se ter uma ideia do grau de miscigenação que vivemos, até a independência do Brasil em 1822 o país tinha basicamente 90% de sua população livre composta de pardos e mestiços diversos, tendo como base genética uma mistura de europeus, negros e índios. Uma proporção ainda maior de brasileiros não falava o português, ou só o tinha como língua basicamente comercial e/ou de ofício, enquanto que no dia-a-dia da colônia era mais comum o uso do Tupi-Guarani(Nheengatu ou Língua Geral). Isso sem falar na população de negros escravos que aportaram no país, oriundos de várias partes da África e muitas vezes sendo composta por gente de cultura superior à do próprio colono brasileiro, este muitas vezes analfabeto e de corpo frágil em comparação aos grandes e corpulentos negros, quase sempre versados em árabe e sabedores de diversas artes manuais essenciais à colônia para qual viriam.
Todas essas informações e outras mais só demonstram o tamanho da loucura e tacanhez que é comparar ou estabelecer qualquer paralelo que seja entre nossa história e a história norte-americana. Mas, infelizmente, há indivíduos em nosso país que insistem em cometer tal crime contra nossa patria, sabotando nossa verdadeira história e adequando a realidade brasileira à uma visão ideológica reduzida. E as conseqüências disso vemos hoje em dia com o surgimento de uma cultura racial revanchista, análoga aos movimentos raciais americanos, resultado direto da própria realidade deles que de nada temos em comum. É a elevação de uma pauta minoritária estranha em detrimento de nossa experiência humanitária oriunda de séculos de colonização. E é lamentável que estes amalucados emocionais, sem compreenderem a realidade histórica do próprio país em que vivem, adotem facilmente narrativas raciais importadas tão grotescas de pessoas que não tem compromisso nenhum com nosso povo e a nossa história se submetendo bovinamente à essas ideologias raciais importadas como bois indo para o matadouro.
Pior ainda são as conseqüências nefastas desta subserviência ideológica, que tem gerado todo o tipo de hostilidade desnecessária entre as diferentes etnias de nosso povo e criando assim um abismo perigoso entre raças que antes conviviam harmonicamente em nosso país, sem muitos problemas. Como um país em que tiveram tantos negros e mestiços em seus quadros políticos, sociais, e em cargos de importância no Império, pode ser considerado candidato perfeito a ser repositório de idéias tão estranhas e danosas à nossa realidade? E por incrível que pareça, mesmo assim, esses movimentos raciais importados estão logrando êxito em adentrar nosso território, tomando de assalto as mentes fracas e mal feitas, pouco a pouco se transformando naquilo que mais combatiam: um movimento em prol da segregação e do ódio racial, elevando uma etnia ou raça em detrimento das outras, por meio do vitimismo tardio e da acusação generalizada, num país onde isso nunca foi fator primordial nas relações entre indivíduos... Parabéns aos envolvidos! Hitler sentiria inveja dessa nova geração de imbecis.
Por Gabriel Alves


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