SÉRIE: O BRASIL E A ESCRAVIDÃO - DA ESCRAVIDÃO ENTRE OS ÍNDIOS (PARTE II)
Por Gabriel Alves.
Com o aumento do nível de integração cultural entre os Tupi e os Portugueses, foi se desenvolvendo um intercâmbio comercial cada vez mais pujante nas comunidades luso-tupi, o que aumentou drasticamente a demanda por mão-de-obra barata para as principais atividades comerciais da nova sociedade: Agricultura, Extração de Pau-Brasil, Construção Civil, etc. Com isso, houve a necessidade cada vez maior de mão-de-obra barata devido a grande expansão comercial que acontecia nas aldeias.
Mas naquele período, havia um agravante: índios morriam aos montes por doenças contraídas dos novos habitantes estrangeiros, que também sofriam com o clima e a vegetação das novas terras. A demanda por mão-de-obra crescia enquanto que muitas pessoas morriam por infecções. Esse era um grande problema.
Além disso, havia também um fato importante que tirava o sono de muitos padres e religiosos que vieram morar no Brasil: rituais de antropofagia (consumo de carne HUMANA) eram praticados em todos os aldeamentos indígenas. Era algo horroroso e desconfortante de ser visto pelos europeus cristãos que ali habitavam com os indígenas. E isso acontecia por causa das guerras entre tribos rivais, com os indígenas vencedores resguardando para o ritual os guerreiros mais valentes entre os perdedores, que, de acordo com a crença, garantiria-lhes a coragem e o espírito do índio consumido. Poucos eram os que sobreviviam: somente os mais fracos e considerado “medrosos” é que não morriam, mas que mesmo assim eram um número pequeno de sobreviventes.
Numa época em que a demanda por trabalhadores começara a aumentar, os luso-brasileiros então tiveram uma idéia: por que não convencer os índios a não sacrificarem os guerreiros das tribos conquistadas, mas sim usá-los como mão-de-obra cativa em seus empreendimentos? Deste modo, seja para uso em lavouras, para o trabalho de extração de madeira, ou mesmo na construção civil, haveria mão-de-obra para as novas demandas locais e ao mesmo tempo colocariam fim aos rituais macabros. Então, a partir daí, inicia-se também um novo tipo de atividade por parte dos luso-tupis: o uso de cativos sobreviventes das tribos inimigas para compor a mão-de-obra de suas novas atividades comerciais. A partir daí, os Tupi passaram a abandonar as práticas antropofágicas para usarem os cativos inimigos em seus empreendimentos. Surge, então, o comércio de cativos indígenas, praticado por índios Tupis, brasileiros mestiços e brancos, onde seu uso se deu em todas as atividades comerciais locais.
Porém com o passar do tempo as atividades comerciais foram aumentando ainda mais, juntamente com a integração cultural e a miscigenação racial no Brasil. E neste momento praticamente já não mais tantos luso-brasileiros brancos no país, devido a intensa “hibridização racial” que ocorreu na colônia. A falta de mulheres, os casamentos euro-indígenas, a integração luso-tupi, o início de uma nova comunidade improvisada a partir desta mestiçagem fez com que a etnia branca rareasse cada vez mais no país. Por isso é difícil dizer que “brancos” neste período (exclusivamente no Brasil) é quem escravizavam unicamente a índios, como é dito em muitos livros com narrativas ideológicas. A verdade é que europeus e indígenas tupis, no Brasil, se integraram como em nenhum outro país e formaram uma nova etnia. A necessidade de mão-de-obra, o instinto de sobrevivência, a dificuldade de casarem-se com mulheres portuguesas, e etc, forçou a integração cultural entre duas etnias diferentes, portugueses e tupis, algo que era totalmente impensável para outros colonizadores do grande continente americano (principalmente para os anglo-americanos que viviam na américa do norte).
E a sociedade local crescia muito, juntamente com a demanda por trabalhadores. As miscigenações eram cada vez mais frequentes. E com a chegada dos primeiros engenhos de cana-de-açúcar no país a situação só se intensificou, dando início a um novo e intenso ciclo de atividades comerciais que aumentara vertiginosamente a demanda por mão-de-obra cativa. E em meados do século 17 o país passou a ser um dos maiores produtores e exportadores de açúcar do mundo. A economia crescia e pulsava cada vez mais nas comunidades locais. Exportações brasileiras para a europa se tornaram cada vez mais frequentes.
Mas o otimismo estava prestes a acabar.
A mão-de-obra cativa dos indígenas rivais usada nas produções locais tornaram-se ineficientes: os índios perdedores, envergonhados, preferiam morrer corajosamente ao invés de se deixarem ser subjugados pelos vencedores rivais. Então, muitos deles suicidavam-se nas fazendas, causando grandes perdas para os donos dos empreendimentos. Fora muitos outros que também morriam de doenças (que era um número ainda maior), algo muito comum desde os primeiros contatos com os novos habitantes europeus (que também sofriam com o clima severo da colônia). Sem contar as DST’s, que também causavam um grande mal nas comunidades locais.
A partir de então, os locais começaram a buscar mão-de-obra alternativa para ocupar o lugar da anterior, encontrando-a no outro lá do do oceano atlântico: ESCRAVOS AFRICANOS, que a partir de então, passariam a chegar aos milhares no Brasil nos próximos anos.
Aguarde pelo próximo capítulo: "Parte II - Da Escravidão Entre os Negros".
Livros para leitura complementar:
Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre)
História da Riqueza do Brasil (Jorge Caldeira)
Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas (Synésio S. Góes Filho)
Duas Viagens ao Brasil (Hans Staden)
A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil (Tiago Cordeiro)
História Geral do Brasil (Francisco A. Varnhagen)
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