SÉRIE: O BRASIL E A ESCRAVIDÃO - O PORTUGUÊS E O ÍNDIO (PARTE I)

Por Gabriel Alves

*Publicado no Facebook em 10 de Julho de 2019

























Quando o assunto comumente é tratado em rodas de amigos, parentes, e até mesmo na Grande Mídia, vem sempre recheado de uma tônica ‘marxista’ de luta de classes, com narrativas do tipo ‘opressor vs oprimido’. Realmente, é um momento triste da nossa história, e isso é inegável. Mas o tema é muito mais complexo do que uma simples narrativa segregacionista.

E atualmente, no Brasil, têm se criado a narrativa de que negros se tornaram escravos na era colonial simplesmente por racismo, como se não houvesse qualquer outro fator que pudesse ter influenciado a prática em solo brasileiro. Dizem ainda que os Portugueses, por terem dificuldades de escravizar os índios como gostariam, buscaram pobres inocentes em terras africanas, com todo o requinte de crueldade que um conquistador poderia ter. É muito difundido também que, no Império do Brasil, negros ou pessoas de cor não tinham direitos ou acessos a sociedade brasileira, simplesmente por sua origem e cor. Por fim, há aqueles ainda que dizem que o Brasil só aboliu a escravatura na República, outros que dizem ser o Imperador um ‘racista’, e também que a elite da época era formada, exclusivamente, por brancos. São muitos fatos que nascem de uma narrativa só: a luta de classes.

Mas a verdade é muito mais complicada do que a contada na escola, meu amigo. E neste artigo, quero trazer à luz fatos de que talvez você, caro leitor, não saiba, e que sempre te negaram saber. Então, sente-se que lá vem história!

- O Português e o Índio -

Era um período complicado. Quando os Portugueses aportaram no Brasil avistaram uma terra à desbravar. Estava tudo por fazer: não havia o mesmo sistema comercial desenvolvido como em outros continentes; a prática da agricultura era desconhecida por boa parte dos povos indígenas que ali viviam, o que dificultava o assentamento de colônias; não havia sistema financeiro; não havia mercado, muito menos uma interação comercial entre as tribos; as terras eram vastas e perigosas; haviam muitos perigos encobertos pelas matas verdes e densas; as chuvas eram avassaladoras; as tribos eram muitas e desunidas, vivendo constantemente em guerra umas com as outras; As práticas religiosas eram regadas pelo sangue humano e pela antropofagia (consumo de carne humana), etc.

O perigo era certo. Mesmo assim, muitos colonos se arriscaram a viver nestas condições primitivas.

Houve sempre a idéia errônea de que os portugueses, quando chegaram aqui, mataram muitos índios e enganaram outros tantos, sempre imaginando que o fim dos aborígenes em mãos lusitanas eram a escravidão ou a morte. Mas o fato era outro: quando os lusos chegaram à costa brasileira, encontraram alguns povos indígenas que os acolheram, os Tupis, fazendo alianças com estes (tupiniquins, tupinambás, etc). Muitos dos índios viam na aliança com os brancos uma grande oportunidade de adquirir ferramentas para trabalhos mais eficientes e armas mais poderosas para combater outras tribos inimigas, que há muito causavam-lhe diversos transtornos ameaçando a sua própria existência. Ao passo que os Portugueses, aliando-se aos Tupis, também podiam obter experiência indígena no conhecimento da terra e das matas, contribuindo para o projeto de colonização. Mesmo que os Tupis tenham sido o único povo indígena que fizeram alianças com os portugueses no ínicio da colonização, não fora de todo ruim, pois estas tribos eram as mais avançadas tecnologicamente e as mais organizadas dentre todas as tribos que viviam no litoral e interior do desconhecido território brasileiro. Talvez os lusitanos tiveram muita sorte em encontrá-los.

A aliança entre Tupis e Portugueses foi feita da seguinte maneira: os chefe das tribos, imbuído de proteger e administrar sua gente, faziam alianças com os novos moradores brancos através do casamento deste com índias da tribo, que geralmente eram suas filhas e parentes. Esta era uma prática tradicional muito comum na Europa, o que facilitou a interatividade com os aborígenes, e também entre os tupi no Brasil. Com isso garantiam que as duas partes da aliança não faltassem com o compromisso feito, sendo que eram parentes que possuíam bens em comum. E pela falta de mulheres europeias no Brasil (devido aos inconvenientes e as dificuldades das viagens ultramarinas na época, era impensável que uma mulher subisse à bordo de um navio para fazer tão longas viagens), os europeus que aqui chegavam no país faziam alianças com essas tribos que os acolhiam casando com as índias, surgindo destas relações os primeiros indivíduos miscigenados do país. E seguiu-se assim por durante muito tempo.

O que se segue então, a partir desta aliança, são os seguintes fatos: os tupi e os portugueses iniciaram uma nova relação político-comercial-militar entre eles, com índios trabalhando para os luso-brasileiros na extração de madeira pau-brasil em troca de ferramentas e artigos europeus, bem como armamento; os portugueses, comerciando com os índios, instalaram-se nas áreas litorâneas e criaram entrepostos comerciais, visando o intercâmbio comercial entre os indígenas cortadores de madeira e os navios de europeus mercadores de artigos das quais os colonos precisavam. Estabeleceu-se, a partir de então, uma relação de trocas entre os portugueses e os índios tupi..

Agora os tupis, além de possuírem itens da qual não desfrutavam antes, passaram a ser superiores tecnologicamente em relação às tribos inimigas, com grandes avanços na agricultura e no poderio militar. Os Portugueses, por sua vez, passaram de uma condição de pobres miseráveis para ricos abastados, aumentando ainda mais sua interação com os índios e consolidando-se como colono. Outro fator importante é que se não houvesse esse alto intercâmbio cultural ocorrido através desta aliança Luso-Tupi talvez o Brasil não seria tão misturado etnicamente e culturalmente hoje em dia, marca registrada única que define o povo Brasileiro.

Outro fator importante era a proporção de Portugueses x Índios: enquanto os primeiros colonizadores não passavam de algumas centenas, os aborígenes eram milhares. Se não fosse as alianças matrimoniais entre indígenas tupis e lusos, a dificuldade de colonização seria drasticamente maior, pois os europeus sofriam muito com o clima e as doenças das terras brasileiras, tornando sua expedição pelo território muito mais complexa e passível de morte. Foi bem melhor se associarem com os Tupis!

Se você chegou até aqui é porque deve estar se perguntando: Portugueses eram aliados dos índios? Casamentos entre índias e europeus? Relação comercial entre os primeiros colonos e os índios no Brasil? Pois é. É algo espantoso e diferente. Pois isso se deu somente no Brasil e não em outras colônias existentes nas Américas. Esta alta relação de trocas e de miscigenação racial só se deu, realmente, com os portugueses e os tupis da costa Brasileira. Sorte? Astúcia lusitana? Receptividade indígena? Benção divina? Difícil sabermos. Mas o que realmente aconteceu foi isso.

Aguarde pelo próximo capítulo: "A Escravidão Entre Índios".

Livros para leitura complementar:
Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre)
História da Riqueza do Brasil (Jorge Caldeira)
Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas (Synésio S. Góes Filho)
Duas Viagens ao Brasil (Hans Staden)
A Grande Aventura dos Jesuítas no Brasil (Tiago Cordeiro)

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